Um velhote castiço da empresa onde trabalho, com quem não lido directamente, mas com quem tenho mantido uma relação cordial e simpática, hoje apareceu muito calmamente no meu departamento, onde costuma aparecer quando anda à procura do patrão.
Quando o vi chegar sem me cumprimentar, estranhei, mas não dei importância, e perguntei-lhe «Então A., anda à procura de quem?». «Da saída» respondeu-me ele, ao mesmo tempo que reparei que, o gaiteiro e extrovertido A., artista do pincel que pinta magníficas paisagens urbanas e que estimo ter cerca de 80 anos, mas muito bem vividos, ao contrário do habitual, tinha barba de dois dias.
Pensei que estava a gozar comigo, e gozei de volta: «Anda perdido, ou quê, A.?! A saída é onde sempre foi...». E volta a pergutar «Onde é a saída?», e percebi que ele estava a falar a sério, não tinha a mínima noção de como sair do edifício onde trabalha, desde que mudámos de instalações, há quase nove anos...
Fiquei a saber depois, que o A. apresenta avançados sintomas de senilidade e/ou Alzheimer. A mulher confiscou-lhe os cartões Multibanco e a chave do carro.
Fiquei totalmente abananado. Chocado. Impressionado com a transformação de uma pessoa em tão pouco tempo. Hoje estamos a fazer piadas sobre pessoas famosas que ele conhece pessoalmente, e dias depois não sabemos o caminho para casa. Hoje estamos a curtir e a comentar o par de boobies da tia que passou na rua e amanhã não sabemos usar a casa de banho.
É o princípio do fim. Não há volta a dar. Vamos perder o A., ou primeiro para a doença que vai agravar e confiná-lo onde o possam manter debaixo de olho, ou directamente para o Grim Reaper.
Não quero ser velho assim. Se o juízo for primeiro que o corpo, façam o favor de me devolver à procedência. A Mãe Natureza estará à espera...

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